O que aconteceu com João de Deus?

  • 04/05/2026
(Foto: Reprodução)
João de Deus: de líder religioso cultuado a condenado por crimes sexuais João Teixeira de Faria, de 83 anos, conhecido como João de Deus, é um líder religioso que ficou conhecido por realizar cirurgias espirituais em milhares de pessoas. Em 2018, a cidade de Abadiânia, no Entorno do Distrito Federal, se chocou com as denúncias de abuso sexual e estupro feitas contra ele por dezenas de mulheres. Veja como está o líder religioso após uma série de condenações. O g1 procurou a defesa de João de Deus, que informou não dar mais declarações sobre o caso. As denúncias contra João de Deus ganharam repercussão internacional após o programa Conversa com Bial, da TV Globo, exibir entrevistas com 10 mulheres que relataram abusos cometidos pelo líder religioso. ✅ Clique e siga o canal do g1 GO no WhatsApp João de Deus na Casa Dom Inácio, em Abadiânia, Goiás, em foto de 2015 Reprodução/ TV Anhanguera Hoje, as condenações contra João de Deus somam quase 215 anos de prisão, segundo levantamento atualizado do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO). Desde 2021, ele está em regime domiciliar em razão da idade avançada e por problemas de saúde crônicos, conforme alegou a defesa. De acordo com a Polícia Penal de Goiás, João Teixeira está cumprindo pena em casa, com tornozeleira eletrônica. Pela decisão que concedeu a alteração do regime, ele não pode se aproximar da cidade de Abadiânia e das vítimas. Atualmente, João de Deus mora em Anápolis, a cerca de 35 km da Casa Dom Inácio de Loyola. João de Deus respondeu por 18 denúncias, sendo 16 delas sobre crimes sexuais, com mais de 200 mulheres que formalizaram depoimentos, segundo Luciano Meireles, promotor de Justiça que coordenou uma força-tarefa sobre o caso no Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO). Em entrevista ao g1, ele relatou que a prisão domiciliar foi recebida com indignação. “O MP tentou tudo para que ele cumprisse a pena no presídio. Como não conseguimos, buscamos o máximo de proteção para evitar que ele tenha contato com potenciais vítimas. Por uma questão de idade, ele conseguiu prisão domiciliar. Isso traz indignação para as vítimas que confiaram no sistema”, contou. Segundo o TJ-GO, ao todo são 67 vítimas nos processos, pois foi reconhecida a extinção da punibilidade pela decadência ou prescrição em relação a 121 delas, que entraram nos processos como informantes. Veja abaixo as penas atuais em cada um dos processos: 2019 Posse ilegal de arma de fogo: pena de 1 ano de detenção, 3 anos de reclusão e 20 dias-multa (pena definitiva); Violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável: 16 anos, 4 meses e 20 dias de reclusão; 2020 Estupro de vulnerável: pena de 30 anos, 4 meses e 15 dias de reclusão; Estupro e estupro de vulnerável: pena de 29 anos e 2 meses de reclusão; 2021 Violação sexual mediante fraude: processo arquivado (punibilidade extinta por decadência do direito de representação de uma das vítimas); 2022 Violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável: 13 anos e 9 meses de reclusão; Violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável: 22 anos e 06 meses de reclusão; 2023 Violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável: 27 anos de reclusão; Violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável: extinção da punibilidade, pela decadência do direito de representação; Violação sexual mediante fraude: 3 anos e 4 meses de reclusão (pena definitiva); Violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável: 29 anos e 6 meses de reclusão; Violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável: extinção da punibilidade, pela decadência do direito de representação; Estupro e estupro de vulnerável: processo arquivado; Violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável: 30 anos, 1 mês e 15 dias de reclusão; Violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável: sentença cassada; Estupro, violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável: 9 anos de reclusão; Crime contra relações de consumo: processo arquivado após sentença absolutória; 2025 Estupro de vulnerável: processo em fase de alegações finais. Total das penas somadas em maio de 2026: 214 anos, 1 mês e 20 dias de reclusão e 1 ano de detenção. Apesar da quantidade de condenações, com exceção dos processos com pena definitiva e arquivamento, todos os outros ainda aguardam julgamento de Recurso Especial pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ), ou seja, as penas ainda podem ser alteradas. LEIA TAMBÉM: Conheça a história de João de Deus, o médium suspeito de abusar sexualmente de mulheres em Goiás João de Deus: entenda as denúncias, condenações e prisões Justiça determina que João de Deus saia de presídio e volte a cumprir prisão domiciliar João de Deus João é o caçula de seis filhos e nasceu em junho de 1942, em Cachoeira de Goiás. Em 1951, o líder religioso relata que teve sua primeira experiência mediúnica aos 9 anos de idade. Em sua biografia, João conta que previu que uma grande tempestade cairia na região onde estavam e alertou que algumas casas cairiam ou seriam destelhadas. No dia seguinte ao temporal, ele narra que ouviu uma voz dizendo que deveria procurar um centro espírita. Segundo João de Deus, ao chegar ao local, o diretor do centro se aproximou, o chamou pelo nome e disse que o estava esperando. Naquele momento, ele desmaiou, acordando horas depois de incorporar uma entidade e curar cerca de 50 pessoas. A partir daí, começou a realizar os atendimentos, que levaram ao seu prestígio. Fama e Casa Dom Inácio de Loyola Depois de descobrir seu “dom”, João de Deus teria começado a atender pessoas, realizando procedimentos conhecidos como cirurgias espirituais. Em 1976, ele fundou a Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, local que anos depois seria palco do escândalo. Na casa, ele realizava atendimentos de quarta-feira a sexta-feira, recebendo “pacientes” de lugares de todo o Brasil e do mundo. Artistas de Hollywood, ex-presidentes da República, governadores, políticos e celebridades brasileiras já visitaram a Casa em busca de atendimento. De joelhos, assistente acompanha encontro entre Oprah e o médium João de Deus Rafaela Céo/G1 Durante as investigações, o Ministério Público não pediu o fechamento da Casa, por entender que a instituição e a fé das pessoas que a frequentavam não tinham relação com João de Deus e os atos praticados por ele. “Tivemos toda a cautela para não atacar a fé das pessoas, esse nunca foi o objetivo. Nosso objetivo foi atacar os abusos, a manipulação sexual e a chantagem emocional”, destacou o promotor Luciano Meireles. A Casa permanece aberta até hoje, em Abadiânia, mas com movimento muito abaixo do que era visto quando João de Deus realizava seus atendimentos. Casa Dom Inácio de Loyola abre normalmente após denúncias de abuso contra João de Deus Denúncias O promotor Luciano Meireles destaca a importância da imprensa para o caso, que começou com uma série de relatos de mulheres exibidos no programa Conversa com Bial, em 2018. Ele lembra que, após a exibição do programa, o Ministério Público divulgou um endereço de e-mail e telefone para denúncias, a fim de verificar se havia outros casos a serem investigados. “A gente não tinha noção nenhuma do que que seria e, naquele mesmo dia, dezenas de pessoas entraram em contato. Dezenas, dezenas, dezenas. Foi a partir daí que a gente passou a compreender o que seria o caso João de Deus”, contou. De acordo com ele, a quantidade de tempo em que os abusos foram cometidos e o número de vítimas foi o que mais impressionou a equipe, já que os relatos vinham de dezenas de mulheres, de várias idades e diferentes regiões do país e até fora do Brasil. Mais de 200 mulheres afirma ao MP que médium cometeu abuso sexual VEJA DENÚNCIAS: mulheres relatam abusos sexuais Como a grande maioria das vítimas não morava em Goiás, elas foram instruídas a comparecer ao Ministério Público da sua cidade para que os depoimentos fossem colhidos e enviados ao MP-GO. As mulheres tinham as mais variadas idades, mas havia incidência maior de vítimas entre 25 e 30 anos. “Muitas vítimas me perguntavam se teriam que ser ouvidas de novo, e pediam para que o oficial de justiça não fosse à casa delas, para que o pai ou o marido não ficasse sabendo. Muitas levavam isso sozinhas por medo de serem acusadas ou perderem o marido”, destacou o promotor. Luciano também destaca que o MP recebeu relatos de vítimas que foram abusadas quando crianças, mas nesses casos, o crime já havia prescrito quando denunciado. “Centenas de histórias repetindo o mesmo cenário de dor e abuso”, lembra Luciano. Legado João de Deus se entregou à polícia no dia 16 de dezembro de 2018, dois dias depois de a Justiça decretar sua prisão preventiva. Na época, ele se declarava inocente de todas as acusações e disse que se entregaria "à justiça divina e a Justiça da Terra". João de Deus, em Aparecida de Goiânia, Goiás Renata Costa/TV Anhanguera Em março de 2020, a Justiça concedeu prisão domiciliar a ele, medida que foi revogada meses depois, quando ele voltou ao Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, em agosto daquele ano. Em prisão domiciliar desde 2021, hoje ele vive em Anápolis, a 55 km de Goiânia. Segundo o promotor Luciano Meireles, as condenações de João de Deus em primeira instância somavam mais de 500 anos. Ele reforça que o caso é um marco para a Justiça brasileira e que é um exemplo de como a voz das mulheres precisa ser ouvida na sociedade. “Foi o primeiro caso em que a coragem de uma vítima encorajou outras, gerando uma cadeia de quebra de silêncio”, destacou. Além disso, mudanças no campo legislativo foram motivadas pelo que foi observado no caso João de Deus, para um tratamento mais digno durante as audiências, proibindo perguntas invasivas durante o depoimento das vítimas. “Antes, a vítima era julgada mais do que o réu. Hoje, evoluímos para a possibilidade de a vítima depor apenas uma vez, para assegurar a integridade psicológica e prioridade em atendimento médico. O caso foi o fio condutor para essas mudanças”, pontuou o promotor. 📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás. VÍDEOS: últimas notícias de Goiás

FONTE: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2026/05/04/o-que-aconteceu-com-joao-de-deus.ghtml


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